Rúben Frazão

Fundamentos · 1 de setembro de 2026 · leitura de 7 min

Como evitar que a IA invente factos (alucinações)

Pedes uma fonte e o ChatGPT dá-te um estudo que não existe. Pedes uma data e o Gemini responde com uma que parece certa mas não é. A isto chama-se alucinação: o modelo produz algo falso com o mesmo tom seguro com que produz algo verdadeiro. Não desaparece com o próximo modelo — faz parte de como estas ferramentas funcionam. O que muda tudo é saber reduzir a frequência e apanhar as que passam.

Porque é que a IA inventa

Um modelo de linguagem não consulta uma base de dados. Prevê a palavra seguinte mais provável, dada tudo o que veio antes. Quando não "sabe" algo, não fica em silêncio — continua a prever, e o resultado é uma frase gramaticalmente perfeita e factualmente inventada. As alucinações disparam em três situações:

Sete formas de reduzir alucinações

1. Dá-lhe o material — não confies na memória dele

A diferença entre "o que sabes sobre X" e "com base neste texto, responde a X" é enorme. No primeiro caso o modelo improvisa a partir do treino; no segundo, trabalha sobre factos que tu forneceste. Cola o documento, o artigo, o email, os dados. É a única mudança que sozinha corta a maior parte das alucinações.

2. Dá permissão explícita para não saber

O modelo alucina em parte porque foi treinado para ser prestável. Reverte isso na instrução:

Se não tens informação suficiente para responder com confiança,
diz "não sei" ou "não consigo confirmar isto".
Não preenchas lacunas com suposições.

É simples e funciona surpreendentemente bem.

3. Pede a fonte junto com a afirmação

"Para cada facto, indica de onde vem (o texto que te dei, conhecimento geral, ou dedução)." Um facto que o modelo atribui a "conhecimento geral" numa área de nicho é um candidato a verificação. E se ele inventar uma fonte, muitas vezes a própria fonte é fácil de desmascarar (um link que não abre, um autor que não existe).

4. Usa a ferramenta certa para a tarefa

Para perguntas sobre eventos atuais ou factos verificáveis, usa um modo com pesquisa web (ChatGPT com pesquisa, Perplexity, Gemini) em vez do modelo "puro". A resposta vem com links que podes abrir. Para trabalhar sobre os teus documentos, usa uma ferramenta de RAG (Claude Projects, NotebookLM, GPTs com ficheiros) que restringe a resposta ao material carregado.

5. Baixa a criatividade quando queres exatidão

Na API, isto é o parâmetro temperature — mais baixo, respostas mais conservadoras. Na interface normal não tens esse controlo, mas o equivalente é pedir: "responde de forma factual e literal, sem elaborar".

6. Pergunta duas vezes, de formas diferentes

Faz a mesma pergunta noutra conversa, com outra formulação — ou pede ao modelo para "criticar a resposta anterior e apontar o que pode estar errado". Se as duas respostas divergem num facto, esse facto não é de confiança. É a técnica de auto-verificação, e apanha uma boa parte dos erros sem trabalho manual.

7. Nunca publiques um número, nome ou data sem confirmar

Esta é a regra que não tem exceção. Texto, estrutura, ideias — a IA acerta quase sempre. Mas qualquer dado concreto que vá para fora (um relatório, um post, um email a um cliente) passa por uma verificação humana de 30 segundos numa fonte primária.

Um checklist de validação para colar no prompt

Antes de me dares a resposta final, verifica:
1. Todos os factos vêm do material que forneci? Se não, marca-os.
2. Há alguma afirmação que eu não consiga verificar numa fonte?
3. A pergunta assume algo que pode ser falso?
Se algum ponto falhar, diz-me em vez de responder.

O que aceitar e o que não

Confia (com revisão leve)Verifica sempre
Estrutura de um texto, reformulações, resumos de material que forneceste, explicações de conceitos gerais, brainstorming Estatísticas, citações literais, datas, nomes próprios, referências, artigos de lei, preços, especificações técnicas, "estudos mostram que…"

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